Encostada à parede, olha à sua volta e questiona-se como irá recolher os cacos que a cercam. Uns maiores que outros. Alguns deixam ainda transparecer a forma original do objeto partido. A preguiça apodera-se do seu corpo. A sua vontade é varrê-los para a rua e deixar que o vento da noite os leve. Mas pensa que se o fizer acabará por se cortar quando um dia, distraída, caminhar descalça por aquela zona. Já basta a dor que sente e não quer magoar-se mais. Mas continua sem vontade de se desfazer daquele empecilho que a circunda. E se conseguisse recuperar o objeto? Sempre gostou de desafios e está com vontade de se aventurar a colar os cacos e a reconstruir o objeto. Ao mesmo tempo reconstrói uma redoma de aço para que nunca mais volte a quebra-se.
A pele cheira a amoras e anseia pela noite. Opta por não olhar para o céu para que o seu Universo seja apenas terreno. Não quer que a Lua lhe retire o desejo de se tornar predadora das criaturas noturnas. Sai sem destino mas com a vontade de exibir por entre a escuridão o véu que lhe cobre a pele. Os galhos, os ramos e a grandeza das árvores são, a par dos seus passos, a única solidez com que se depara. Entrega-se ao calor e, com a sabedoria que só ela conhece, liberta-se do corpo e eleva-se sorrindo para si mesma, sabendo que é capaz de, a cada dia e cada noite, vestir mais uma camada de pele que a protege dos astros e das intempéries.
“Pode estar toda partida por dentro mas o exterior revela-a como nunca a tinha visto antes.”
Estas palavras surgiram de quem me acompanha há já uns meses. Esta noite lembrei-me delas. Principalmente porque os rasgos que a minha alma poderia ainda ter resolvem-se tão depressa e tão simplesmente bastando para isso ir a uma sapataria.
O que mais me agrada no meio disto tudo é sentir-me de volta.
(Os meus clics são fantásticos.)
Mesmo que os sonhos não se cumpram
E se cruzem emaranhados
Mais vale levantá-los alto
Do que neles ficar deitado
Os teus tens de cuidar
Porque alguns se cumprirão
Podem nem ser os mais altos
Nem os mais perto do chão
Serão concerteza aqueles
Que guardas como a idade
Trancados num coração
Que merece a felicidade…
Hoje voltei atrás no tempo e recuperei um poema que aqui tinha deixado há precisamente um ano. Os sonhos nunca deixam de ser presente.
Mais um aniversário.
Este pesa-me mais. Pesa-me nos olhos, no rosto mas principalmente nos ombros.
Não deixa de ser o meu dia e é principalmente hoje que gosto de me aninhar aos meus e sentir-me mimada.
Arranca um novo ano e com ele vem também o Sol e a vontade de algumas realizações.
Sinto-me mais forte e mais firme. Só falta arregaçar as mangas mas ainda não é hoje. Hoje é dia de brindes e abraços. Venham eles!
Olho fixamente o écran branco à espera que a coragem me traga impulso ao dedos para escrever sobre os útimos meses da minha vida.
Não foi bem num casulo onde estive, nem mesmo num ilha porque vivi dia a dia numa cidade onde os dias continua a correr com a mesma tristeza de sempre. Digamos que vivi com um escafandro, num ritmo só meu, rodeada do meu elo (a família e os amigos de sempre). O que se passou é que entrei numa dormência tal que quando dei por mim tinha perdido sentimentos e estados de espírito como o nervosismo, a ansiedade, a angústia, o medo e ao contrário do que podemos pensar são estados que nos fazem sentir vivos. Preciso sentir adrenalina, as mãos suadas, o coração a bater mais rápido e tudo isso se desvaneceu e desapareceu. Praticamente tudo passou para segundo e terceiro plano para mim e deixei de dar qualquer importância às coisas. Não é toda a gente que atura alguém assim. Até tenho uma pobre alma que muita atura que muitas vezes me gritas aos ouvidos o meu nome como que a chamar a pessoa que em tempos eu já fui. Mas hoje dei o primeiro passo para trazê-la de volta. Não sei quanto tempo demorarei a trazer de volta a Madalena de outros tempos mas ela chegará uma dia e isso é certo.
Os dias…parecem ter mais horas. São passados sem tempo, sem ânsia, sem voracidade. Vivo-os com a calma e serenidade de que durarão com a imensidão e profundidade do mar e por isso repouso os braços, os ombros e os olhos. Estou tranquila apesar de à superfície o mar estar revolto mas estou a ganhar forças para voltar a navegar e sei que vou conseguir. Vou estruturar o barco onde vou perfurar as altas vagas, as demoníacas ondas e sei que vou conseguir. Vou realizar um sonho antigo. Antes não tinha como o fazer e mais tarde será tarde demais. Esta é a hora porque assim tem de ser. Esta é a hora de me rodear de energias boas, de gente de boa-fé, e de muita força. Esta é finalmente a minha hora e está unicamente na minha mão.
Nunca arranjo soluções, fico-me sempre pelo caminho. As soluções vêm num ápice, sem pensar sequer um segundo nelas. Angustio-me, debato-me, levo dias a fio a combater e a lutar, muitas vezes contra mim, dou voltas e mais voltas, contruo e descontruo, choro e finalmente durmo, durmo dias seguidos quando me parece que o mundo desabou novamente. Sou o contrário dos outros talvez, fecho-me por dentro. As cicatrizes já são tantas que os meus olhos já não conseguem manter-se abertos. Não há medicação que suporte esta estrutura e mantenha firmes os alicerces e já se viu que de ferro não sou e por isso durmo para fugir do mundo. Quando acordo está tudo na mesma, durmo mais. Mesmo acordada estou num estado letárgico em que o escafandro é o meu refúgio. Forças para lutar e me manter acordada não tenho ainda. Outra vez toca a colocar tudo às costas e subir a montanha mas não é para já. Nesta altura da minha vida, mais do que nunca, quero uma ilha…onde possa renascer.
Às vezes apetece-me entrar por aqui de rompante como tantas vezes entrei pela vida e largar as palavras duras que por vezes me rasgam o peito, a alma, a ponta dos dedos. Outras vezes passo por aqui e releio apenas textos antigos e aliso os lençóis, ajeito as cortinas, mudo a água às flores e volto a fechar a porta serenamente. Sou assim com tanta coisa. Talvez seja assim com tudo, mas não se nota. Já se notou. Agora prego os pés ao chão, por vezes nem os vejo tão submersos de areias que se encontram e desço vários decibéis ao tom de voz e atribuo melodias aos pensamentos e sigo em frente, muito lentamente. Vivo nos cantos, nos vértices, nas sombras das árvores, bebo do rocio, sacio-me nas raízes. Não revivo memórias áridas e infecundas. Deixei-me disso quando me apercebi que eram âncoras presas a lamas. Aos poucos tenho conseguido libertar-me de algumas. Vou ganhando amarras que me fortalecem a minha estrutura. Todos somos talhados para grandes feitos…há que saber o que fazer com as ferramentas que encontramos em nós.





