Submersa

16 Maio 2013

Foto: Nicholas McCalip

Por vezes parece mentira a vida que tenho. A pele que visto. A roupa que me serve. Os sapatos que calço. Parece não ser verdade que sou quem sou. Com todo o peso que carrego ou com toda a leveza que transpiro. Por vezes vejo outro reflexo que não é o meu. Como se vivesse numa bolha ou na via láctea.
Tantas vezes olho para as minhas conquistas e não me lembro de as combater. Ou esgatanho-me até alcançar o que não me realiza. Perdi tanta memória que tanto gostava de recuperar. Não me basta ler entradas vagas nas agendas ou nos cadernos ou ver fotos de outros tempos. Há momentos dos quais gostava de conseguir recuperar cheiros, dores, angústias, alegrias. Vedo e acimento de tal forma episódios da minha vida que mesmo que queira recuperar coisas boas dessas épocas não o consigo fazer. É como se fosse outra pessoa a viver algo vivido por mim. Os meus filhos cresceram depressa demais. As pálpebras carregadas revelam demasiado o caminho que já percorri.
Às vezes parece que não sou eu ou serei mesmo eu tudo aquilo que às vezes pareço?

Momentos meus

13 Maio 2013

Foto: Madalena Palma

13 Maio 2013

Foto: Alain Daussin

Em que pensas quando me observas em silêncio?

Momentos meus

10 Maio 2013

Divagações várias e diversas

9 Maio 2013

Várias coisas. Preciso ver o campo e saber porque demora ele a oferecer-me girassóis. Preciso começar a escrever uma história e a organizar os livros, cadernos e os escritos de uma vida porque quero viver como se não houvesse amanhã. Quero fazer planos para concretizar um dos sonhos dos meus filhos e focar-me nisso o mais que consiga. Quero continuar a acreditar que o Benfica vai ser campeão. Estou desejando ver o filme The Great Gatsby. Ganhar coragem para limpar e arrumar a porcaria do sótão que só serve para acumular lixo. Ainda este mês vou ao Pavilhão Atlântico ver um concerto e estou ansiosa. Este ano vou sem falta aos santos populares a Lisboa com as minhas amigas. Organizar-me para ir ganhar uma cor na pele. Fazer uma ginástica impossível, tipo pilates misturada com ioga e p90x para conseguir pagar as contas todas. Comer caracóis e estrear a esplanada do meu terraço. Mas agora vou mazé preparar-me para o passeio no campo em família e aproveitar o feriado da minha cidade.

Fases

9 Maio 2013

Trabalhos para acabar. Relatórios para fazer. Manuais para concluir. Móveis para restaurar. Armários para organizar. Formações para frequentar. Papéis para imprimir. Cadernos para estudar. Livros para ler. Mails para responder. Documentos para organizar. Pastas para arrumar. Listas para completar. Limpeza para fazer. Projetos para implementar. Unhas para arranjar. Fotografia para fazer. Roupa para acomodar. Conversas para ter. Telefonemas para fazer. Respostas para dar. Dieta para manter. Ideias para escrever. E fazer tudo isto com um sorriso que dá a volta a um ritmo só meu é o que se pode chamar de saber viver. Que existam mais fases como esta é o que se pede e recomenda.

As mãos

8 Maio 2013

Foto: Alecu Grigore

As mãos. São sempre as mãos que começam o frenesim incessante percorrendo o corpo. Não param. Umas vezes mais suaves, outras mais firmes e enérgicas parecem querer aquecer e fazer fluir o sangue. Os olhos passeiam pelas pálpebras cerradas. O cabelo sente o toque profundo dos dedos. Segue-se o arrepio na pele. Todo o corpo reage sempre daquela mesma forma. O apelo ouve-se em todas as células. Depois vêm os lábios. Tão quentes e húmidos a emoldurar uma língua ávida de sussurros. Os beijos moram no pescoço, nos ombros, nos seios e na cintura, nas coxas. Toda a pele reclama aquele gesto. Lábios nos lábios trocam beijos, segredos, afectos e desejo. Tudo se mistura até que os olhos se abrem e entram na alma um do outro vagueando e navegando por todos os cantos. Cada olhar é uma descoberta. Uma dádiva. Os lençóis moldam-se aos corpos banhados em fluidos que se confundem mas que se distinguem nas pontas dos dedos. A luz muda e emudece o mundo. O tempo habita onde os paralelos se cruzam. Bem para além do horizonte. A linha que, cúmplice, lhes serve de leito.

Dia

17 Abril 2013

Foto: Tiavir

Depois da noite vem o dia, com horas que nunca mais acabam. Se tantas vezes me apetece roubar a noite, também outras tantas me apetece fazer do dia apenas uma hora e estica-la o mais que consiga para sentir o tempo estagnar. Combato hábitos que sei que me vão doer. E prefiro cair um enorme trambolhão do que habituar-me ao silêncio do tempo a passar.

Ontem vi o pôr-do-sol com o corpo meio submerso na piscina. Foi diferente. A luz, ontem, estava particularmente bonita. Sentia-me possuída por ela sempre que vinha à superfície ganhar folego. Até parece pleonasmo mas o sol é muitas vezes o meu balão de oxigénio e toco-o no tornozelo quando me faltam as forças.

Fico a sentir-me bem quando me apercebo que consigo desfrutar de pequenas coisas que podem marcar a diferença dos dias.

Noite

17 Abril 2013

Chega a noite e não tenho vontade absolutamente nenhuma de escrever. Estou cansada de sentir seja o que for. Às vezes apetecia-me ter o dom de me conseguir transformar em máquina e entrar em modo off.

A vida encarrega-se de me mostrar a toda a hora que os dias não são mais do que um aglomerado de horas em stand by como se aguardássemos sempre que algo aconteça. Que nos saia o euromilhões, que o governo se demita, que a balança confirme o nosso desejo, que a conta no supermercado é menor do que previmos, que finalmente nos surja um emprego, que o acerto da EDP está enganado, que o depósito do carro afinal está ainda meio, que as flores abram hoje finalmente, que saia mais um episódio da nossa serie preferida, que não seja preciso comprar mais um par de ténis, que hoje consiga acabar o livro, que tenha razões para me levantar da cama…

Os dias passam, uns atrás dos outros e tento a todo o custo colocar coisas na agenda para não permitir que a inércia se apodere de mim mas não é fácil. Não está fácil. Mas o pior, mesmo o pior de tudo é sentir isso mesmo…os dias a passar. É por isso que tantas vezes me apetece sair de madrugada de mansinho, pegar no carro e ir para o meio do nada e ali estar…apenas olhar o céu e esperar que o silêncio se apodere do momento. E nesse preciso instante em que nem o som do mundo se ouve, esticar para cima os braços o mais que consiga e roubar a noite, puxá-la como se de um lençol se tratasse. Depois, dobrá-la-ia bem dobradinha e guardava-a até que quisesse. Até que me apetecesse, só para não deixar que o tempo passe.

É o meu lado egoísta. Mas quem não o tem?

 

Aquele…

14 Abril 2013

Foto: Christian Coigny

Aquele beijo. Aquele que não resistimos. Aquele onde nos entregamos. Aquele beijo que leva tudo. Aquele onde nascemos. Aquele beijo onde morremos. Que leva a alma. Aquele beijo que nos ruboriza. Aquele ao qual fugimos por breves segundos para o poder prolongar. Aquele beijo. Aquele que nos entreabre ligeiramente os lábios. Aquele beijo que começa tépido, calmo e termina quente. Explosivo. Aquele beijo que nos leva as forças. Fechamos os olhos para o sentir inteiro naquele único sentido que é o da alma. Aquele beijo desmedido e interminável. Aquele que é doce e levemente molhado. Aquele onde depomos o desejo de o querer para sempre. Aquele beijo sôfrego e que marca conquistas e momentos como uma bandeira. Aquele beijo que apetece. Aquele onde nos sentimos morar quando o corpo levita. Aquele.

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