Às vezes apetece-me entrar por aqui de rompante como tantas vezes entrei pela vida e largar as palavras duras que por vezes me rasgam o peito, a alma, a ponta dos dedos. Outras vezes passo por aqui e releio apenas textos antigos e aliso os lençóis, ajeito as cortinas, mudo a água às flores e volto a fechar a porta serenamente. Sou assim com tanta coisa. Talvez seja assim com tudo, mas não se nota. Já se notou. Agora prego os pés ao chão, por vezes nem os vejo tão submersos de areias que se encontram e desço vários decibéis ao tom de voz e atribuo melodias aos pensamentos e sigo em frente, muito lentamente. Vivo nos cantos, nos vértices, nas sombras das árvores, bebo do rocio, sacio-me nas raízes. Não revivo memórias áridas e infecundas. Deixei-me disso quando me apercebi que eram âncoras presas a lamas. Aos poucos tenho conseguido libertar-me de algumas. Vou ganhando amarras que me fortalecem a minha estrutura. Todos somos talhados para grandes feitos…há que saber o que fazer com as ferramentas que encontramos em nós.
No meio de tanta história e de tanta memória às vezes a vida rouba-nos o espaço como se nos sugasse o sangue e nos obrigasse a parar. E paramos. E habitamos num buraco negro, nem gravidade, sem tempo, sem espaço. Ali coexistimos num paralelo vendo a vida passar-nos ao lado, sem nos preocuparmos em vivê-la também. Não necessitamos de ar, nem de andar, nem de decidir, nem de comer ou dormir, de rir ou chorar, de sociabilizar, de trabalhar, de cantar, de nos vestirmos. Não precisamos de nada. A ausência de tudo, nomeadamente da capacidade de decisão das coisas mais básicas absorve-nos a escassa força das pálpebras pelo que não necessitamos sequer de ter os olhos abertos. São os intervalos da vida. Nem sempre são possíveis. Nem sempre não necessários. Mas eu sei o bom que é por vezes residir no buraco negro onde a ausência de gravidade devora memórias que enraízam muito da minha personalidade. Aos poucos regresso. À medida que eu queira que a vida o permita.
O vento beijou-me o rosto e o cabelo. Foi a medida certa para me acordar. Já dormia há demasiado tempo na areia quente do deserto de corpo semi despido e totalmente coberto de areia. Mas mantive-me deitada até que o sangue aquecesse e novamente esticasse as veias até que os membros se alongassem. A travessia no deserto impôs-se quando a alma se afastou e o corpo oco, inócuo e sem vida já não tinha mais forças para olhar a vida. Fugi e baixei os braços. Virei costas e tudo e a todos e segui sem destino mas com a certeza absoluta de que se sobrevivesse à viagem deixaria no caminho os pesos e a negritude. Nas minhas pegadas tinha a marca dos poucos pilares que me acompanham. É o meu maior conforto e foi o que me alimentou. Mas foram muitos dias. Demasiados dias. Dias em que os dormi por inteiro…nem dei por eles passarem. Dias em que não dormi nem por um segundo. Dias em que enganei o estômago com água. Dias em que entristeci todas as células do meu corpo. E chegou o dia em que me deitei na areia e desisti por completo. Nunca pensei que ia morrer. Mas pensei que jamais iria ter forças para viver. Senti naquele momento o vento a trazer-me areia para os ombros e para a curva das costas. Abandonei-me e adormeci até ter o corpo quase todo coberto daquela areia ardente. Foi muito tempo. Foi o tempo necessário. Regresso timidamente para o meu canto. Sem pesos. Sem muito do que levei. E com muita leveza. Com todo o espaço para ter a minha alma de volta trazida hoje pelo vento.
…é altura de finalmente baixar os braços e desistir.
Não é altura de lutas nem de batalhas. Nem de arregaçar as mangas nem de ter os olhos fixos no horizonte. Este não é o momento de lamber as feridas nem de olhar para trás. Este é finalmente o momento de arrumar todas gavetas e de deitar fora o que não presta que não vai mais fazer falta. É o momento para fechar e calafetar as janelas e persianas e de trancar a porta à chave. Este é definitivamente o momento de formar o casulo. Ditoso aquele que vive a vida sem necessidade de o fazer mas é demasiado premente para mim juntar o corpo à alma.
Já não se escreve quando as palavras faltam.
Ficam escondidas nos nós dos dedos e nas dobras das mãos. Fervilham apenas na mente e no sangue e vagueiam por toda a alma quase que elevando o corpo. Umas ficam presas nos lábios. Outras nas pontas dos dedos. Outras vou deixando nas pedras da calçada ou nas pegadas na areia. Há palavras que escrevo ainda na espera tardia da vida demorada. Cerro os lábios e os olhos. Prendo as lágrimas. Não vale a pena. A alma desprende-se do corpo e solta no éter todas as letras. Não vale a pena guardá-las ou aguardá-las. Não sou donas delas. Não sou dona de mim.
Hoje como já fiz tantas vezes, sentei-me aqui e pensei-te…
Pensei o teu sorriso…
Pensei a tua voz…
Pensei a tua força…
Pensei o teu sorriso que cativa, que ilumina, que apetece, que se alonga e estende como sol de fim de tarde na planície…
Pensei a tua voz que murmura e sussurra, que oferece melodias infinitas de convites e desejos, e que por vezes te foge para avisar que não é dela qualquer tristeza…
Pensei a tua força que todos reconhecem, a muralha de aço que protege os teus ou os que mais precisam, aquela que descobre e oferece a palavra certa e sensata, o controlo e a lucidez…
Pensar-te é rever-te e reconhecer-te, porque foi assim que te conheci …
e hoje pensei-te…
Acordei com um poema
Na palma da minha mão
O lugar onde escondo o rosto
Quando o amor me declara a alma
As palavras estavam alinhadas
Uma a uma com a tua cor
Estuavam-se com o desejo de sentir
Beijei as mãos e toquei-as com ardor
E ao meu corpo as entreguei
Para num poema me transformar







