…e estou agarrada a isto. A este e a outros. Não tenho sono e enquanto troco mensagens com quem faz da madrugada a jornada de trabalho, navego por mares que há já algum tempo não navegava. Tenho as luzes apagadas e as janelas abertas. As velas iluminam pouco. Acendi poucas. A lua está quase cheia. Magnânime. A sua luz entra sem pedir licença. Esta é também a sua casa. Tenho lido algumas viagens de outros caminhantes. A ânsia das férias confunde-se com as angústias da vida. O que nos leva a gritar aqui ao mundo que nos lê o quanto temos cá dentro? Noutros tempos deixaria aqui o que me vai na alma e o quanto têm pesado estes dias, e são quase noventa. Mas não vale a pena. Quem me lê não muda o rumo das coisas e quem pode mudar não merece ler-me porque nada faz. É por isso que desisti de deixar aqui muito dos meus estados d´alma porque deixei de acreditar nas pessoas que vivem fora da muralha que constrói a minha vida.
A brisa trazia sussurros que falavam de ti… fechei os olhos e deixei-a acariciar-me o rosto, o peito, as mãos…
Por entre os dedos passava esguia, suave e ondulada como os teus cabelos. Foi neles que me demorei a escutar ou apenas a relembrar…
Por vezes eram sopros curtos como beijos roubados, outras longos como murmúrios, que assim directos ao rosto me faziam suster a respiração, claro que era sempre que te pensava mais triste, e aí era como se o ar revolto me quisesse arrepiar a pele, era como se me dissesses “ não percebes que estou bem…?”
Depois ficava a calma e deixavas o teu aroma para eu inalar de um fôlego, que retinha até à exaustão.
Foi um vai e vem que não quis parar, provoquei, deixei-me arrebatar, mas segurei sempre nas minhas mãos aquela brisa esguia, suave e ondulada que nos ligava, e deixei-me ficar naquele torpor pela noite dentro enquanto revisitámos memórias…
A luz do meu quintal inspira os cortinados que dançam ao sabor da brisa da noite. A luz é ténue mas com um charme que apetece. A música surge uma atrás da outra escolhida com a mestria de uma estrela que teima em se manter. Apetece estar aqui. Não quereria estar em mais nenhum lugar. Vagueio pelo espaço desejando que a noite não termine. Não porque queira evitar o amanhã, mas porque a noite tem tudo no lugar…a inspiração, as memórias, os momentos e as cores e até mesmo o cheiro que surge como vindo do céu. Há alturas em que parece tudo tão simples, mesmo quando a vida está estrangulada por nós que parecem mais apertados a cada dia que passa. Não sei se alguma vez perceberei a razão desta simplicidade de estado mas sabe bem descomprimir e amar tudo o que tenho à minha volta. Até mesmo os obstáculos ou esgares e trejeitos que me rodeiam passam para um plano diferente. É como se inconscientemente estivesse a colocar tudo no seu devido lugar. E por mais voltas que dê é sempre num vasto campo de girassóis que encontro a serenidade e a força para abraçar tudo o que a minha vida tem de bom.
Fecho os olhos. Fecho quase sempre os olhos. Em varias circunstâncias. É mais fácil quando a ausência se alimenta das memórias. As pestanas, como um risco negro, revelam a silhueta que a janela escurece. De olhos fechados apura-se o sabor ácido e salgado, o aroma quente e o tacto suave e firme da pele suada. Quando me toco sinto a tua mão e com ela todos os sentidos se revelam.



