
…versos ávidos ensaiados em melodias trazidas pelo vento.
Talvez vindas das folhas dos girassóis ou das velas hasteadas de barcos imaginários.
Um dia vi um barco no céu…numa noite em que o firmamento era pequeno demais para a imensidão daquele momento.
Foi no ponto mais alto da casa, em que no instante exacto olhámos para o minguante convexo que a luz do Sol desenhou na Lua e com a ajuda da única nuvem que existia naquele mar estrelado avistámos um barco. A imagem que partilhei revelou a cumplicidade e o desejo uno de viajar para o mesmo destino.
Gosto de reler, rever, revisitar, reviver…é como se acimentasse todos os momentos que me constroem.
Sinto-me serena quando consigo retirar deles o mesmo sentimento…mesmo que já tenham passado dois meses e meio.

Foto: Nicola Ranaldi
…nem como contenho a saliva.
Não consigo descobrir que movimentos faço aos ombros nem a forma como mordo os lábios.
Não sei como me sinto envolta em dezenas de mãos ou onde pára o fio de suor que sinto escorrer.
Não controlo…não necessito de o fazer…nunca o quis fazer…
…imagens de outros tempos e de outras vidas.
Acabaram por ser retalhos daquilo que me constrói e também por isso devo amar cada pigmento de cor que a minha retina recolheu.
Sinto-me bem e não me doeu e/ou criou qualquer tipo de saudosismo.
Mas não me foi indiferente. É uma mistura de sentimentos que me fazem sentir bem. Gostei o meu sorriso e da forma limpa como olhava para o que me rodeava. Hoje estou diferente. Não avalio se estou melhor ou pior. Sou a mesma pessoa mas com o acumular de muitas mais vivências e isso nota-se no olhar mais vincado. Mas o sorriso está aqui e para mim é fundamental que nunca se perca.

Foto: Pascal Renoux
…do que simplesmente fechar os olhos os sonhos passam a fazer parte do dia como se fossem um pronúncio da noite. Quase que adivinho o que está à espreita do canto escuro das minhas pálpebras. São sempre diferentes mas têm vários pormenores em comum. Têm temperaturas díspares porque em todos os sonhos eu tenho frio e calor, ou estou nua ou à volta do fogo. As vestes ora são leves ou avolumadas. O ambiente muda mas é sempre uma constante o meu sentimento e raramente me sinto angustiada. Sinto sempre o coração calmo e quando está galopante muito raramente é por uma perda ou ausência. Por vezes assumo outro rosto, outra época. Mas sou sempre eu. Eu. Pelos sonhos vale a pena dormir. É como se vivessemos uma vida comandada unicamente pelos desejos mais profundos que imperam na nossa alma.

Foto: Luciano Marino
…por onde terei andado. Mas uma pessoa não pode viajar para o vazio. É impossível, porque quando conseguimos abandonar o corpo viajamos para outro lado qualquer nem que seja para estar a cinco centímetros de distância. Acho que tinha algo relacionado com o mar porque o som que recordo assemelha-se a barulho das ondas. Mas ondas pequenas, sem espuma, como se fossem a última dobra que o mar faz na areia. Suaves. Mas era quente e parecia ter tons vermelhos e dourados. Mas não queimava e o aroma tinha mais a ver com o fogo do que com o mar. Mas não havia nada a arder ou a ferver. Mas eu estava quente. Muito. Talvez fosse esse calor que me fizesse abandonar o corpo por ser algo demasiadamente…intenso e imenso para suportar fechado e limitado à minha carne. Mas eu não me vi e costumo ver-me. Até me vejo de olhos fechados, cabelos selvagens, a nuca dobrada e o corpo flectido a adivinhar uma deflagração. Mas não vi. Foi como se o meu corpo tivesse desaparecido e a minha alma existisse apenas…mas onde? É que não consigo ver mesmo por onde andei. De que cor é o firmamento? É quente? E o som? É semelhante ao som das ondas pequenas, aquelas últimas que dobram o mar sobre a areia? E é a alma que sente o prazer da carne?