Chora incontrolavelmente. “Gostava que pudesses fazer alguma coisa por mim, estou a passar um mau bocado”, foi o que me disse enquanto lhe preparava o banho. “Não posso amor, posso fazer tudo por ti menos fazer passar essa dor”, respondi-lhe de coração partido. Só eu sei o quanto queria ter toda aquela dor na minha alma para que ele, tão novo, pudesse apenas pensar noutras coisas que o preenchem.
O Henrique já se senta à frente no carro, partilhando comigo a chefia das direcções. Coloca a mão em cima da minha quando mudo de mudança e chama-me a atenção quando não dou piscas. Está mais calado e maduro e isso nota-se de dia para dia. Os meus chinelos já não lhe servem e o abraço já é menos apertado porque já “é grande”. Um desgosto de amor partiu-lhe o coração. O primeiro desgosto de amor. A sua sensibilidade retira-lhe o som do choro. As lágrimas encontram conforto no peito. Caem sem parar. A camisola tinha uma mancha enorme das gotas que caem de fio. “Quando estou junto a ti mamã só me apetece chorar, posso chorar contigo?”. Dói muito ver um filho sofrer. Dói mais quando não podemos fazer nada para amenizar a dor. Conversámos, sugeri que escrevesse algumas palavras no seu caderno, mas respondeu-me dizendo que só lhe apetece chorar e estar deitado. O que vale é que amanhã começa a rotina e apesar da escola e os colegas serem os mesmos tem a responsabilidade de, como irmão mais velho, integrar o mano no espaço que já é seu. No momento em que escrevo este texto ouço-os no quarto a conversar. O mais novo, com apenas 9 anos, diz-lhe “ela não te merece senão gostava de ti”, o mais velho, do alto dos seus 11 anos responde “que percebes tu disto?” e o André remata “sou teu irmão e sei que não mereces estar a chorar”.