Há alturas em que gostava de viver apenas do coração. Dos momentos imediatos. Não construir memórias. Ignorar a alma ou o espírito. Alimentar-me apenas de cada batimento. Dando tudo de mim a cada segundo. Segundo esse que era passado no segundo seguinte não deixando qualquer marca, nem em mim, nem em ninguém. São raros os momentos em que assim penso. São muitas vezes aqueles em que a tristeza se abate e pouca vontade tenho de encontrar animo para seguir em frente. Mas há também aquelas alturas em que o espaço em mim é pouco para albergar o desejo, o amor e a vontade de atitudes inconsequentes. É como o orgasmo. É tão bom o caminho até ele que, por vezes, protelamos alcançá-lo. Mas são apenas pequenos instantes em que assim penso. E depois…basta-me fazer café, deixar que os aromas se espalhem e com eles venham as memórias. Imagens, frames, conversas, mãos e palavras, convites explícitos e histórias intermináveis. Tenho recordações incríveis e uma memória extraordinária para os aromas e a todos eles junto um sabor, e só depois vem o calor do gesto ou a doçura do olhar.
23 Novembro 2009