No meio de tanta história e de tanta memória às vezes a vida rouba-nos o espaço como se nos sugasse o sangue e nos obrigasse a parar. E paramos. E habitamos num buraco negro, nem gravidade, sem tempo, sem espaço. Ali coexistimos num paralelo vendo a vida passar-nos ao lado, sem nos preocuparmos em vivê-la também. Não necessitamos de ar, nem de andar, nem de decidir, nem de comer ou dormir, de rir ou chorar, de sociabilizar, de trabalhar, de cantar, de nos vestirmos. Não precisamos de nada. A ausência de tudo, nomeadamente da capacidade de decisão das coisas mais básicas absorve-nos a escassa força das pálpebras pelo que não necessitamos sequer de ter os olhos abertos. São os intervalos da vida. Nem sempre são possíveis. Nem sempre não necessários. Mas eu sei o bom que é por vezes residir no buraco negro onde a ausência de gravidade devora memórias que enraízam muito da minha personalidade. Aos poucos regresso. À medida que eu queira que a vida o permita.
26 Dezembro 2011