O vento beijou-me o rosto e o cabelo. Foi a medida certa para me acordar. Já dormia há demasiado tempo na areia quente do deserto de corpo semi despido e totalmente coberto de areia. Mas mantive-me deitada até que o sangue aquecesse e novamente esticasse as veias até que os membros se alongassem. A travessia no deserto impôs-se quando a alma se afastou e o corpo oco, inócuo e sem vida já não tinha mais forças para olhar a vida. Fugi e baixei os braços. Virei costas e tudo e a todos e segui sem destino mas com a certeza absoluta de que se sobrevivesse à viagem deixaria no caminho os pesos e a negritude. Nas minhas pegadas tinha a marca dos poucos pilares que me acompanham. É o meu maior conforto e foi o que me alimentou. Mas foram muitos dias. Demasiados dias. Dias em que os dormi por inteiro…nem dei por eles passarem. Dias em que não dormi nem por um segundo. Dias em que enganei o estômago com água. Dias em que entristeci todas as células do meu corpo. E chegou o dia em que me deitei na areia e desisti por completo. Nunca pensei que ia morrer. Mas pensei que jamais iria ter forças para viver. Senti naquele momento o vento a trazer-me areia para os ombros e para a curva das costas. Abandonei-me e adormeci até ter o corpo quase todo coberto daquela areia ardente. Foi muito tempo. Foi o tempo necessário. Regresso timidamente para o meu canto. Sem pesos. Sem muito do que levei. E com muita leveza. Com todo o espaço para ter a minha alma de volta trazida hoje pelo vento.
17 Outubro 2011